quarta-feira, 29 de maio de 2013

Belle de Lesley Pearse

Avaliação: 
[552 páginas; 38 capítulos]

A história de Belle tem início em 1910 e é construída em diversos cenários interessantes: Londres, Paris (e outras cidades da França) e New Orleans, mostrando não só os costumes, hábitos e trajes da sociedade Europeia de outro século, como também o progresso histórico em andamento, principalmente, nos Estados Unidos. A descrição da época é natural, cria uma atmosfera que nos permite participar daquela sociedade como algo mais que apenas espectadores. 
Porém, apesar da ideia da trama ser naturalmente envolvente, o modo como foi desenvolvida deixou a desejar. Uma história com tanto potencial foi escrita sem nenhum aprofundamento emocional. Não há período de conhecimento e aproximação nas relações entre os personagens; o menor envolvimento e o mais fraco diálogo com Belle a elevam para o nível de pessoa extremamente importante na vida dos outros personagens, que não negam esforços (muitas vezes arriscando a própria vida e segurança) para ajudá-la.
Outro ponto fraco da história é a dicotomia clássica do bem e mal. Personagens bons, mesmo realizando trabalhos "sujos" (como o homem que a contrabandeia da França para os Estados Unidos), não possuem uma personalidade mista. Ele é um homem bom em todos os pensamentos e ações. Ninguém, nem mesmo a protagonista - que nada mais é que a "mocinha" injustiçada da história, mais uma personagem puramente boa, sem nenhum ponto negativo - tem realmente uma personalidade. Os personagens são extremamente rasos (mas a autora parece achar de extrema importância comunicar a idade de cada pessoa que surge em cena, detalhe que achei desnecessário na maioria dos casos).
Por outro lado, o assunto discutido no livro é interessante: o terrivelmente comum contrabando de jovens garotas, algo que, infelizmente, existe até os dias de hoje. O sofrimento das meninas que foram tiradas da família, a perda da inocência ao serem obrigadas a se vender para conseguir viver e a forma como o "sistema" por trás do glamour dos bordéis sobrevive e funciona é totalmente exposto, nos induzindo a pensar sobre o horror por trás de algo que se tornou parte da sociedade.
O final é previsível; há prisões, casamentos, uma garota com um passado obscuro recomeçando a vida cheia de oportunidades e sonhos ao lado de um rapaz que desde sempre a amou imensamente, as polícias inglesa e francesa se esforçando para achar as garotas desaparecidas e destruir o esquema de contrabando e prostituição de menores... Enfim, absolutamente nada de surpreendente.
Um último detalhe, que acredito não ser culpa da autora, mas sim da equipe da editora do Brasil, que faz a tradução e a revisão do texto traduzido: muitos erros de digitação. Ainda houve a enorme gafe de um parágrafo ter sido escrito em primeira pessoa - sendo que o livro é inteiro em terceira pessoa - e não se tratava de um diálogo ou pensamento. Fiquei estupefata com a quantidade de erros, para ser bem honesta.
Para um livro de 500 páginas (que, só como curiosidade, custou apenas 30 reais na Fnac), foi fácil devorá-lo. A escrita é simples e você tem vontade de saber o que acontecerá em seguida, onde Belle estará, quem conhecerá e se finalmente voltará para casa. Poderia ser um livro muito bom, se os personagens fossem melhor desenvolvidos e o final não fosse tão clichê.

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